Manuel Luís Goucha revela a razão de manter as cinzas da mãe no quarto: “Um dia terei de…”
Manuel Luís Goucha, de 70 anos, explica porque vai para Paris nesta quadra, como passa o Réveillon e porque mantém as cinzas da mãe no quarto.

TV7 Dias – Como vai ser o Natal, sendo este o segundo sem a sua mãe?
Manuel Luís Goucha – Será em Paris. Só deixei de passar o Natal em Paris nos últimos sete anos, porque a minha mãe estava velhinha. Durante anos, a minha mãe viajava connosco, fez em Paris e em Londres. Depois chateou-se de andar muito e dizia que já não queria mais. Os últimos anos, como não sabia quando era o último, passávamos com ela. Ela morreu o ano passado, em agosto, e retomámos. Por uma razão muito simples, eu viajo à conta da ópera, do bailado e dos concertos, e em Paris, na noite de Natal, todos os teatros e óperas têm espetáculos. E é preciso comprar com antecedência. Por exemplo, já comprei bilhetes para o Tosca na noite de 24 e no 25 para o bailado, o Notre-Dame de Paris, também na Ópera Bastille. São as prendas que dou a mim próprio.
É estanho já não ter a sua mãe?
Não. É muito tranquilo. Ela morreu aos 101 anos, e eu só posso estar grato à vida por a ter tido durante 69 anos. Quando a recordo sozinho ou quando falamos dela, rio-me imenso com o Rui, com as coisas que ela dizia. Sempre que a mantenho viva na minha memória, na minha solidão, quando estou comigo próprio ou com o Rui, é sempre divertido. Não é nada de tristeza. As cinzas continuam ali na suite dela, todos os dias digo: ‘Bom dia, mamã, até logo, mamã’ e vou-me embora. Claro que gostaria mais que ela estivesse comigo, às vezes sinto ganas de ligar para ela. Ela queria sempre saber como é que eu ia vestido. Com quantas pessoas eu conversei cujos pais morreram tinham eles sete anos, 20 anos, ficaram órfãos cedo. Eu tive o privilégio de a ter 69 anos, 101 para ela. Eu tenho muita coisa dela. Ela não gostava de beijos, eu também não, gosto de abraços, ela era gulosa e eu também sou, ela era cortante a falar e eu às vezes também sou.
Porque ainda não se desfez das cinzas?
Tenho que me desfazer porque ela quer ir para o mar de Buarcos. Tenho, aliás, de pedir autorização à capitania, porque isso é proibido. Gosto de saber que ela está no quarto dela, na suite. Há de ser pacifico também, um dia terei de fazer a vontade dela.





